BAIXIO DAS BESTAS
 

Baixio das bestas
(09 e 10 de Dezembro)

Brasil, 2007. Drama, 80’

Direção: Cláudio Assis
Roteiro: Hilton Lacerda
Fotografia: Walter Carvalho
Música: Pupillo
Elenco: Dira Paes, Matheus Nachtergaele, Hermila Guedes, entre outros.

Indicado para maiores de 18 anos.



COM A PALAVRA

entrevista do diretor ao sítio da revista Criativa

Criativa Online - Em primeiro lugar, sua intenção com Baixio das Bestas é chocar o público?
Cláudio Assis - Não é, e afirmo isso com certeza. Peguei pesado na ficção para mostrar a realidade. Misturo o documentário sobre a dominação de quase quinhentos anos da monocultura da cana-de-açúcar com a ficção. Quero mostrar que os usineiros sempre exploraram o povo e nada foi feito. Agora, chega o fascista do [George] Bush [Jr.} e manda plantar cana por causa do álcool? Será que vamos reeditar a miséria cultural, social e econômica novamente? Acho que essa é a grande pergunta que deve ser feita.

COl - Baixio é um retrato ou questionamento socioeconômico e cultural de Pernambuco?
CA - Não de Pernambuco, mas da monocultura da cana-de-açúcar que se repete em São Paulo, Minas Gerais e explora o homem. O filme faz um questionamento do Brasil. Acredito que só conseguimos ser globalizantes quando falamos de nossa própria aldeia. Foi isso o que eu fiz.

COl - O questionamento é mais político ou social?
CA - Acho que social, mas a política está como plano de fundo. O filme se propõe a pensar por que não reagimos à nossa crua realidade, composta pelo povo, pelas prostitutas, pelos homens do campo... Não quis ser panfletário. Prefiro que as pessoas entrem no universo e se apaixonem por ele ou o odeiem ao mesmo tempo.

COl - A exploração sexual e moral das mulheres no filme é clara. É uma denúncia ao machismo arraigado na sociedade brasileira, principalmente em comunidades conservadoras do Nordeste?
CA - É uma denúncia, sim. Se olharmos as estatísticas da Unesco, vemos que em Pernambuco, quase uma mulher por dia é morta por crimes passionais ou violência doméstica. Se você olhar o Brasil, é a mesma coisa. Algumas pessoas querem me enquadrar contra as mulheres por causa das cenas pesadas. Não é isso. Estamos discutindo a violência que existe na nossa cara e não enxergamos.

COl - Você não poderia ter feito um filme mais leve para mostrar essa realidade?
CA - Não. E acho que não temos de fazer concessão a nada. Brincar de bonzinho é pior. Não quero usar a mesma fórmula do cinema hollywoodiano, que sempre tem um salvador. Sei que nem eu nem o filme resolveremos o problema de Pernambuco ou do Brasil. Peguei pesado no roteiro. O que quero é ser emblemático a ponto de provocar nas pessoas a discussão: ou você concorda ou discorda, mas quero provocar esse embate político.

COl - Em um dos momentos do filme, o personagem de Matheus Nachtergale afirma que a pobreza é como um câncer. Você acha que a justificativa para a degeneração moral daquele povoado é mesmo a pobreza?
CA - Acho que não. Não é a pobreza que degenera porque ela é vítima desse processo dos grandes latifúndios. Uma prova é que, no filme, são os agroboys, filhos de classe média, que tocam terror na cidade.

COl - Outra fala do personagem de Nachtergale é que "o bom do cinema é que você pode fazer o que quiser". Isso é o que determina e o que o leva a fazer filmes tão polêmicos como Baixio das Bestas?
CA - Sim, no cinema você pinta o mundo com o seu olhar. No caso de Baixio, aliei o documentário à ficção para contar algo da realidade. Essa foi minha escolha.

COl - O filme é árduo e de difícil digestão. Você teme não ser bem aceito pelo público quando estrear nos cinemas?
CA - Não temo a rejeição do público, não. Não é sempre que acertamos. Eu estou contente por ter feito o que eu queria. Se as pessoas não gostarem e acharem que eu errei, acerto na próxima.

COl - Você conseguiu encontrar uma resposta para o porquê da paralisia do povo?
CA - A resposta quem vai encontrar será cada espectador que assistir ao filme e pensar no que se pode fazer a respeito dessa paralisia que nos atinge.

“Caruaru é uma cidade muito cruel com seus filhos. Lá as coisas andam mal. O barro, matéria-prima de todos aqueles artistas, está acabando. Tudo lá tem a ver com política. Os teatros estão acabando, a situação é terrível. Aí vem o governador de Pernambuco e diz que adora arte popular, que tem na casa dele coleção completa deste e daquele artista. De que adianta? Isto não resolve a miséria em que vivem os artistas populares. É preciso tomar ações concretas.

Cada cineasta tem o seu viado, o seu homossexual. Cada um cria o seu personagem do jeito que quer, com liberdade total. O que podemos fazer se há putas, viados e travestis em nosso país? Cada um faz o que gosta de fazer. Todos são seres humanos. Não vamos tapar o sol com a peneira e dizer que só temos gente assim ou assado. Que um viado, ou um garçom, tem que ser representado de tal forma predeterminada. O Matheus fez o trabalho dele muito bem. O viado dele é o meu viado. Meus personagens são gente de carne e osso. Eu falo de relações humanas, de amor, de tesão, de desejo.”

CLÁUDIO ASSIS (n. 1959, PE)
filmografia como diretor:

Baixio das bestas (2007)
Amarelo manga (2003)
Texas hotel (curta) (1999)
Soneto do desmantelo blues (curta) (1993)
Padre Henrique, um assassinato político? (curta) (1987)