BAIXIO DAS BESTAS
 

Baixio das bestas
(09 e 10 de Dezembro)

Brasil, 2007. Drama, 80’

Direção: Cláudio Assis
Roteiro: Hilton Lacerda
Fotografia: Walter Carvalho
Música: Pupillo
Elenco: Dira Paes, Matheus Nachtergaele, Hermila Guedes, entre outros.

Indicado para maiores de 18 anos.


Baixio das bestas, por Wagner Palazzi*

      Segundo o crítico francês André Bazin, não existe filme ruim. Para ele, todos os filmes são dignos de alguma observação e mesmo quando feitos da impessoalidade típica da escala industrial, servem ao menos para que aprendamos os clichês desta indústria. Poderia acrescentar que fora os filmes industriais, existem também no circuito dos filmes de arte (que também formam uma indústria) alguns títulos que merecem destaque mais pelas discussões que geram, do que propriamente por suas qualidades intrínsecas. São filmes onde a indiferença não se faz possível e geralmente nos tocam / chocam de maneira profunda, seja por sua temática, por sua força imagética, ou mesmo por evocar individualmente algo de nosso inconsciente. Esse arrebatamento, que é, em ultima instância, um arrebatamento das emoções, por vezes nos impede de verificar com mais afinco a razão que nele se encerra. Ficamos no chamado juízo indistinto, onde o que se diz, no caso “gostei ou não gostei”, nada diz. Nestes casos, tornaria mais interessante uma discussão que pensasse as várias possibilidades do cinema em lidar com seus eixos temáticos e principalmente uma análise sobre os êxitos destas tentativas.

      Baixio das bestas, de Cláudio Assis me parece ser um destes filmes. Independente do juízo indistinto de valor da película, Baixio oferece uma rica oportunidade para estas reflexões e um papel essencial para uma discussão sobre o fazer cinema em um país como o nosso.

      O filme todo é uma vontade que não se concretiza, pois é também um paradoxo intransponível. Como fazer a denúncia de uma situação real em uma obra de ficção? Como um registro – sempre parcial – da realidade pode influir em nossa concepção de mundo? Como retratar, de maneira humana, as misérias desta mesma humanidade? Assis parece não ter as respostas para essas perguntas, e mesmo assim resolveu arriscar um palpite.

      Tudo no filme é esquemático e simplista. Desde a primeira aparição de cada personagem, já sabe
mos de antemão seu papel na trama. Caricatos ao extremo, o playboy é só um playboy e uma prostituta é apenas uma prostituta. Não há espaço para contradições humanas nos personagens. Eles são o que são, ou melhor, são o que Cláudio Assis quer que eles sejam. Estão ali mais para corroborar a tese do diretor - que me parece ser esta: na Zona da Mata nordestina, em meio aos canaviais, longe da civilização, percebemos que a humanidade é podre - do que para retratar a realidade que Assis deveria buscar.

      Essa imposição de uma realidade é aprofundada nos movimentos de câmera, sempre bem construídos, com a luz perfeita, a expressão certa, os diálogos já traçados, tirando da mis-en-scène a possibilidade do imprevisto, da ambigüidade, do aspecto multifocal que existe na vida humana. Resta então um mundo enfaixado pelo “estilo” do diretor. Assim, o choque causado pelo que deveria ser real perde o foco e se instala na exploração da própria imagem filmada e montada. Nada de diferente dos programas de fim de tarde, que trazem ao vídeo a “vida como ela é”.

      Há no Brasil uma necessidade, herdada do Cinema Novo, de que o cinema deve ser um veículo de combate, de transformação social. Porém, ao invés de combater, Assis se rende ao poder de choque das imagens, e transforma seu filme em algo baixo, como o próprio título indica.

      Não há limites para um diretor conseguir o melhor plano ou enquadramento. Se para isso é necessário colocar uma criança nua de frente para caminhoneiros, não há problema algum, afinal tem-se sempre a desculpa de que isso é o que ocorre diariamente, e que negarmos isso é fecharmos os olhos para o problema. Porém, esquecemos que a exploração da identidade social do outro através da imagem é um dos problemas centrais das sociedades contemporâneas. E nada indica que o impacto causado pelo filme possa se transformar em ação política, pois o impacto é visual, e a ação política é um resultado exclusivo da reflexão.

      
Partindo da convicção generalista de que todo homem é uma Besta, Assis nunca coloca esta certeza em xeque e cria um mundo a sua imagem e semelhança. Não há humildade nos planos, e o que transparece é que seu objetivo foi exatamente o choque, sempre esvaziado de conteúdo.

      Por fim, fica a pergunta “para que serve o filme?”. Nascido de uma vontade de descobrir uma realidade violenta de um local específico, onde a tradição, moderno e pós-moderno se entrelaçam, aquilo que poderia gerar uma rica reflexão acaba por se perder. Fica no espectador ao deixar a sala o estômago embrulhado pelas imagens violentas e a cabeça vazia, já que não há espaço no filme para outra visão que não seja de seu realizador.


*Wagner Palazzi é animador cultural pelo SESC-Araraquara

 

Leia aqui entrevista de Cláudio Assis ao site da Revista Criativa