AMANTES CONSTANTES
 

Les amants réguliers
(25 e 26 de Novembro)

França, 2005. Drama, 176’

Direção: Philippe Garrel
Roteiro: Garrel, Arlette Langmann e Marc Cholodenko
Fotografia: William Lubtchansky
Música: Jean-Claude Vannier
Elenco: Louis Garrel, Clotilde Hesme, Julien Lucas, entre outros.

Indicado para maiores de 14 anos.



COM A PALAVRA,

entrevista do diretor ao sítio da revista Cinemascope

CinemaScope: Em 2003, Bernardo Bertolucci também fez um filme sobre o maio de 68, Os sonhadores - um filme radicalmente diferente. Os amantes constantes parece ser quase o contrário de tudo que tentou Bertolucci.
Garrel: Os sonhadores é muito clássico. Considero meu filme um trabalho mais vanguardista. Ele foi filmado de um jeito característico do cinema de 1968. E, à propósito, meu filme custou um décimo do que Bertolucci gastou com Os sonhadores. Desta maneira, também, penso eu que Os amantes constantes seja muito moderno: ele tira o máximo de fontes muito limitadas.

GS: Você teve o sentimento de ter que contar esta história uma vez mais, inclusive visando revisar visões dominantes sobre estes eventos históricos?
PG: Na França, por um longo tempo, muitas verdades sobre o Maio de 68 foram monopolizadas porque De Gaulle ainda estava por perto. O papel que ele interpretou durante o movimento foi obviamente menos do que glorioso, mas desde que De Gaulle até este dia virtualmente personifica a Resistência, que não pode ser tocada na França, jamais, muitos fatos relevantes ao Maio de 68 foram negados.
Mas como eu já estava ali, e já que também acontecia de ser um cineasta - eu já havia lançado meu primeiro filme, em 1967 - poderia finalmente dizer minha versão desta era. Isto por si só já era positivo. Ainda, Maio de 68 foi uma batalha ferrenha. E agora, um daqueles que perdeu a batalha diz esta história mais uma vez. Realmente, é um filme de perdedores.

GS: Como você trabalhou com William Lubtchansky? Você deixou-o fazer o que ele quisesse, ou você tem alguma mão no trabalho de câmera?
PG: Depende. William e eu pertencemos à mesma geração, assim como meu editor, Françoise Collin. Este filme é um filme de uma geração. Todos nos identificamos fortemente com esta história. Assim é que decidimos trocar com mais freqüência idéias. E já que todos atingimos definitivamente a segunda parte de nossas vidas produtivas, esta troca dependia muito de quem estava mais desperto em uma dada manhã, e de quem gostava de dirigir coisas. Com a nossa idade, tendemos a nos agrupar mais facilmente do que costumávamos fazer. Assim, no filme tem posições de câmera que são tipicamente minhas, e outros enquadramentos que são mais característicos do William.
rabalhamos juntos como músicos, na verdade: temos linhas de diálogo que nem uma banda de Jazz, que continua improvisando sobre o que foi escrito. Quem fica com vontade de tocar, é só tocar primeiro.

CS: Foram quatro anos desde seu último filme. Está sendo mais difícil financiar seu trabalho ultimamente?
PG: Sabe, cada centavo de Os amantes contantes veio da esquerda política, ainda que seja uma produção baseada em recursos privados e de fomento público. Não é uma piada, é a realidade. Teve de ser assim: não teria maneira de se contar esta história que oferece uma perspectiva fatalmente sinistra sem o dinheiro da ala esquerda. Portanto sim, foi particularmente difícil financiar este filme. Mas eu não sou o único. Está sendo igualmente cada vez mais difícil para os fazedores de filmes compilar suas produções. Eu costumava dizer que fazia filmes só para mim mesmo, mas as pessoas sempre me perguntavam se eu era louco, porque eu estava fazendo filmes. pra isso!? Tornou-se difícil - e quase paradoxal - fazer cinema de verdade em um período que é invadido e dominado por imagens industriais. Se alguém tivesse me descoberto e me financiado nos meados de 60, assim como aconteceu a grandes clássicos cineastas, minha carreira poderia ter sido diferente.
Disto isto eu tive fortes auxílios na minha vida, uma delas foi Henri Langlois, da Cinemateca Francesa.

CS: Uma vez que seus filmes sempre parecem constituir sua própria categoria, não foi estranho submetê-lo à competição em um grande festival como o de Veneza?
PG: Para um pintor participar nisso, você diz? É verdade, foi meio bizarro, sim.

CS: E por que você concordou então?
PG:É uma tradição de grandes festivais de cinema exibirem uma peça de avant garde, para incluírem uma ovelha negra. Em Veneza, em 2005, essa obviamente foi eu.

PHILIPPE GARREL (n. 1948)
filmografia como diretor:

(em filmagem) La frontière de l’aube (2008)
Les amants réguliers (2003)
Le vent de la nuit (1999)
Le coeur fantôme (1996)
A cicatriz interior (1972)
Le révélateur (curta) (1967)