AMANTES CONSTANTES
 

Les amants réguliers
(25 e 26 de Novembro)

França, 2005. Drama, 176’

Direção: Philippe Garrel
Roteiro: Garrel, Arlette Langmann e Marc Cholodenko
Fotografia: William Lubtchansky
Música: Jean-Claude Vannier
Elenco: Louis Garrel, Clotilde Hesme, Julien Lucas, entre outros.

Indicado para maiores de 14 anos.


Amantes constantes, por r. l. almeida*

      “Uma ovelha negra”. Isto é o que disse Phelippe Garrel ao repórter, quando este perguntou como ele se sentia, concorrendo no Festival de Veneza do ano de 2005. Uma resposta deveras enigmática, escondida em algum dos lados da verdade, visto que o referido festival é um reduto de filmes nada comuns. Aqueles desalinhados que. quando andam não tangem nem para um lado e nem para o outro, duvida-se até de que param em pé. Some a isto o fato de imprensa e crítica insistirem na tecla rasa da rememoração de acontecimentos, do trabalho de arte autobiográfico, e teremos um ponto de partida para imaginar o ponto do humor de um artista do renome Garrel, no momento em que apenas respondia.

      Phelippe Garrel, 54 anos e 24 longa-metragens lançados no mercado cinematográfico mundial, é mais um dos nomes que o Brasil nunca ouviu dizer: “Amantes constantes” é o seu primeiro filme a alcançar distribuição comercial nos cinemas tupiniquins. O filme se passa antes, durante e depois da revolução estudantil e operária do final dos anos 60, na mesma Paris que viu carros arderem em chamas e trabalhadores saírem às ruas. É nessa primavera de acontecimentos que Garrel nos expõe a um grupo de estudantes, também na primavera de suas vidas. Deles, escolhe para seguir com sua câmera a musa Lillie (Clothilde Hesme) e o poeta François (Louis Garrel, filho do diretor, que também pode e deve ser visto no filme de 2001 de Bernardo Bertolucci, “Os sonhadores”) - os dois amantes a que faz referência o título.

      Talvez Garrel seja um Ken Loach francês, ou ainda um Bernardo Bertolucci belga – sem querer com isso redimir a expressão de qualquer destes artistas a de ninguém. O que se pode afirmar é que Garrel era um desses enfants térribles que conta o filme. E a premissa de Garrel pai para fazer o filme foi dizer que perdeu algumas latas de negativo cinematográfico filmados naquela noite.

      Amantes constantes corre solto, ao sabor do acidente, do acaso – ainda que numa linha temporal. Suas imagens da noite da revolução são hábeis: a fotografia em preto & branco foi escolhida pelo conflito entre cenas noturnas e diurnas (diametralmente opostas, em sentido e em técnica). É esta habilidade que lhe permite reter a câmera observando em longos planos seqüência, seja quando retrata a multidão ensandecida, ou ainda quando pinta Lillie, uma bela da tarde trouffaniana.

      A reconstrução, para seu autor, foi minimalista. A mise-em-scene da fita, porém, é que confere ritmo e (non) senso ao filme: a história nunca está simplesmente se repetindo, e a tragédia não retorna como farsa. Amantes contantes é, antes de um romance, um filme político que joga com a causalidade aleatória das cenas, das falas e das situações, sem um pingo de sentimentalismo ou romantismo.

 

* r. l. almeida é curador da Sessão Zoom pela UNESP-FCLAr

Leia aqui entrevista de Phelippe Garrel ao sítio da revista Cinemascope