ELSA E FRED - UM AMOR DE PAIXÃO
 

Elsa y Fred
(22 e 23 de Outubro)

Espanha, Argentina, 2005. Comédia/Drama, 108'
Direção: Marcos Carnevale
Roteiro: Carnevale, Marcela Guerty e Lily Ann Martin
Fotografia: Juan Carlos Gómez
Elenco: Manuel Alexandre, China Zorrilla Bianca Portilla, entre outros.

 

classificação indicatória livre


Uma história que desafia os preconceitos, por Leandro Marques*

Se tratasse de fazer um resumo, poderia dizer que o filme Elsa e Fred - um amor de paixão conta a história de duas pessoas que encontram a maneira de ultrapassar as tristezas e sofrimentos de toda uma vida, para, na última etapa, quando talvez podiam pensar que tudo já estava definido, permitirem-se o luxo de desfrutar totalmente da aventura do amor. Estas poucas linhas que definem o argumento central do filme do diretor Marcos Carnevale - uma co-produção espanhola-argentina -, se bem que não faltem com a verdade em absoluto, estão muito longe de explicar ou esboçar sequer um pouco do que acontece. Na verdade, é infinita a distância que separa essa síntese concisa do que o filme é na realidade. A diferença é tão grande como a que separa um filme denso, previsível e estereotipado, de outro que surpreende a cada passagem, que se deixa fluir com harmonia e transborda brandura, filosofia e bom humor.

A solidez técnica e narrativa do filme. A facilidade de Carnavale estar presente ausentando-se, como, por exemplo, ao situar a câmera no ponto exato, sem deixa-lo nunca tomar demasiado protagonismo.
O equilíbrio e a inteligência com que a direção compõe os personagens e formula a evolução da história, tratando de desviar da tentação de cair nos lugares comuns. O deslumbrante trabalho dos atores, o espanhol Manuel Alexandre e a uruguaia China Zorrilla (em um de seus melhores papéis).
Através destes quatro fatores fundamentais, a película permite-se descansar em sua estrutura externa e dela se esquecer, gerando deste modo o marco ideal para que na tela aflore aquilo que nada tem que ver com o material, e tudo com o cinema. Porque juntos, Elsa e Fred são pura química e magia, e convertem-se em sócios de um sonho que atravessa a tela. Os dois, sozinhos, são capazes de desafiar qualquer espectador preconceituoso (que olhe com suspeitas uma história de amor entre gente mais velha) que levante da poltrona e saia do cinema se é capaz de sentir-se aborrecido ou irritado ainda que por um minuto.

Talvez as maiores virtudes da história idealizada pelo diretor Carnevale, juntamente com Lily Ann Martin e Marcela Guerty tenham a ver com a valentia para abordar um tema muito usado cinematograficamente e com a capacidade de construir giros em favor do ritmo e da brandura da narração, sem nunca perder de vista os parâmetros básicos de verossimilhança que fazem a trama.
O personagem encarnado magistralmente por Zorrilla é decisivo para que o filme possa tomar um caminho diferente do esperado. Sua Elsa é pura energia, espontaneidade, malícia, alegria de viver. Seu corpo enrugado e umas quantas dores não são suficientes para ocultar um contagioso espírito de juventude. Fred, por outro lado, leva uma vida monótona e rotineira. Leva consigo a tristeza de ter perdido a esposa, mais que amada mulher, amada companheira. Quando o azar cruza os dois vizinhos, Elsa praticamente atira-se sobre Fred. Busca-o, quase o persegue. Apostara suas fichas em poder passar bem com esse homem silencioso e honesto que tão bem lhe cai.
Cada encontro, saída ou diálogo entre Elza e Fred não tem desperdícios. O filme vai avançando, e à medida que o faz, os conflitos e a carga dramática da história ganham mais espaço. No entanto, a essência luminosa e fresca do filme mantêm-se até o fim. Nisto tem muito da coerência nas escolhas e decisões que toma o roteiro para a resolução da trama. O filme não tem que se esforçar para adoçar nem minimizar o final. Simplesmente é a conseqüência natural de um fluir anterior.

Elza e Fred logram mostrar que o amor entre pessoas da terceira idade é capaz de envolver a paixão, o erotismo e os sonhos. Não necessitam negar sua velhice para consegui-lo, muito menos implorar a juventude passada. Sem cair em estereótipos, o filme se sustenta com solidez na idéia de que nunca é tarde para o amor, como sustenta o lema que reza a película, uma citação de Pablo Picasso, “lleva tiempo llegar a ser jovem”. Basicamente, os personagens vivem e desfrutam o máximo do amor que podem viver. Neste sentido, o principal mérito da película é a firmeza com que o diretor encara sua abordagem ao tema proposto. Se por sobre todas as coisas, algo querem Elza e Fred, esta é demonstrar e fazer crer que o amor tem entidade própria na velhice: não é um assunto exclusivo dos jovens.

 

* publicado originalmente no sítio Labutaca,. Acesso em 01/09/2006. Vertido do espanhol por Vanessa Rosado.